segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Perfeitamente Imperfeito


Já preparou uma refeição a um africano que não sabe o que é comida provavelmente desde que nasceu? Viu aquela pessoa faminta devorar o que você deu a ela, sorrindo incrédula, sem nem sentir direito o gosto de tanta fome que sentia, e, quando saciada, essa pessoa simplesmente rir, rir, rir e então rir e chorar de até soluçar? Rir de felicidade plena, de satisfação, alívio, incredulidade; chorar de humilhação, de vergonha e também alegria extrema. Vendo isso, o que você faria? Imagino que abraçaria, consolaria, daria seu apoio e mostraria que, hey, está tudo bem agora. Não precisa preocupar, esqueça a fome que você já sentiu, esqueça a dor, está tudo bem.
Eu precisava disso. Precisava de você comigo. Não de mil amigos meus vendo que eu tava claramente perturbada com algo e sem eu poder falar uma palavra sequer – até porque, se você não entendeu, nenhum deles entenderia. Eu tentei eu mesma te substituir e me dar o que eu precisava que você me desse, mas não funcionou. E agora acho que nem adianta você tentar fazer isso por mim, acho melhor eu lidar com tudo que aconteceu sozinha.
Sei que teve um grande significado pra você, também  Só que tinha um significado muito mais fundo e pesado pra mim. E eu não queria ter tido que lidar com isso sozinha. 

Amigos da Selva


Eu não aprovo a dita Lei da Selva. Ouvi tanto sobre o assunto, e já discorri sobre isso tantas vezes, mas eu nunca tinha reparado que ela estava presente em situações tão pequenas. Eu a vi nitidamente por esses dias e flagrei-me surpresa com o tanto que ela estava intrincada em cada mínimo gesto e cada minha partícula de ar. E vi as consequências dela em você. Suas rugas, sua pele, seu olhar, seus ombros duros e pescoço tensionado. Você estava sucumbindo ao estresse e nem sequer minhas massagens melhorariam a situação – e digo porque tentei. E a Lei da Selva viera em forma de um amigo, que decerto não tinha nenhuma intenção de deixá-lo assim, pois eu não tinha dúvidas de que ele te amava. O problema era aquela maldita Lei, que o sobrecarregou e, desesperado pela própria sobrevivência, jogou o peso nos seus ombros de uma forma que parecia que havia jogado pedras. Não posso julgá-lo por ter feito isso com você, mas também não deixo de me compadecer da situação. O seu estresse me doía em algum lugar dentro de mim que eu geralmente associava à impotência. Eu estava impotente. Nada que eu falasse ou fizesse poderia te tirar daquela situação e eu temia pela amizade de vocês que poderia facilmente ser danificada por causa do anseio pela vida – aliás, não pela vida, mas pela sobrevivência. Ele precisava do seu trabalho para se sustentar e você precisava de tempo para trabalhar não apenas naquele projeto, mas em tantos outros, para poder também se sustentar. E aquilo se tornou não uma bola de neve, mas uma bola de arame farpado. Até eu estava nela, agarrada, desesperada e impotente. Preocupada por ver você daquela forma, ver justo você daquela forma. Sempre me senti tão protegida nos seus braços e aquele conforto que você me dava era uma força que me fazia acordar todo dia, mas eu não tinha como oferecer o mesmo a você. Eu não sabia como te proteger. Só podia assistir e esperar o final desse martírio chegar. E sei que ele vai chegar. Só espero que, nessa hora, vocês não estejam destruídos, ou que o laço entre vocês também não esteja tão danificado. Talvez, aí, eu possa tentar consertar suas feridas – ou pelo menos fazer alguma massagem que realmente dê resultado nos seus músculos duros.

Plenitude e Egoísmo


O Ser Humano é um animal que tem inteligência, mas não consciência do quanto precisa da natureza. O Homem faz parte da natureza, afinal. Só percebemos o quanto ela faz falta quando entramos novamente em contato com ela. Fomos ao parque das mangabeiras com o intuito de discutirmos o nosso relacionamento, mas grande parte do tempo passamos apenas apreciando aquele cheiro de terra e ar fresco batendo no rosto e nos cabelos. Depois chegamos a conversar, no Papa, o que foi deveras produtivo; entretanto, só o fiz porque algumas coisas não devem ser deixadas para depois – e porque sou um bocado teimosa, admito. Para mim, aquele momento apenas nós dois, com seu sorriso cansado e olhos mais alegres, no meio daquele lugar tão bonito, era suficiente para me mostrar o quanto eu fazia questão de você na minha vida. Pareço até ranzinza de ter feito tanta questão daquela conversa, mesmo depois de ter passado um momento tão feliz ao seu lado, mas há certas dores que são necessárias, mesmo em meio a situações tão gostosas. Aquele fim de tarde tinha gostinho de algodão-doce e cheiro de chuva – mesmo que não tenha chovido. Alguns cheiros, alguns gostos, algumas sensações têm um sentimento especial para mim. Partilhá-los com você foi algo transcendental e talvez você jamais saiba, mas você naquele momento entrou num pedacinho do meu mundo. Você raramente entra no meu mundo, mas quando o faz, é uma emoção sublime. Havia ainda tantas coisas que eu queria ter te mostrado, tantas que eu queria ter feito com você, mas eu não precisava atropelar tudo e te entupir de informações novas e vivências esquisitas do meu mundo. Aquele momento bastou. Eu estava feliz, e fiquei ainda mais feliz porque nossa conversa – meu pequeno egoísmo – havia se saído bem. Nós estávamos bem. Podíamos melhorar, mas todos sempre podem melhorar, mas estávamos bem. Caminhando para algo imperfeito como o mundo, mas perfeito da forma que eu podia ver.

Sobre Vazio e Rosas


As pessoas nos dias de hoje são tão vazias. Hoje eu descobri, quando acordei na minha cama e, após me remexer na preguiça de levantar, virei para o lado e me deparei com o buquê que você me deu. Meu dia teve outro sentido naquele momento; mesmo minha tão conhecida sonolência matinal havia desaparecido quase que por mágica. Pela primeira vez em muito tempo eu sorri ao acordar. A minha pequena descoberta foi algo além da minha própria compreensão, apenas um mínimo resquício da plenitude daquela verdade, mas que já era o suficiente para que eu ficasse satisfeita. Eu não partilhava do mesmo vazio que as demais pessoas. É estranho dizer isso assim, depois de tantos anos convicta de que eu tinha algo dentro de mim que era até mesmo silencioso, um puro vácuo que nem os sons propagavam. Entretanto, eu não era vazia – parecia, por não me adequar na maioria das situações dessa época em que nasci. Eu apenas me sentia mal e sentia falta de algo que, na verdade, era apenas o recheio do vazio dos outros. Eu não estava vazia, só estava frustrada com o vazio alheio. Era essa a novidade que, mesmo sendo apenas um pedacinho de algo incompreensível, para mim bastava. Levantei da cama naquele momento e sentei com as pernas cruzadas no chão, frente ao vaso que continha o buquê. E eu soube que você não era assim tão vazio, também. As pétalas das rosas estavam começando a murchar e a água estava um pouco esverdeada, mas eu não me importei. Aquilo que eu encarava com tanta admiração era uma prova mortal de um sentimento que podia nunca morrer, se nós tomássemos o devido cuidado. Eu sabia que as rosas iriam morrer, mas aquilo já não me deixava triste. Eu amava você e, por isso, amava as rosas. Se elas sumissem, eu ainda amaria você, mas se você sumisse, eu não mais amaria as rosas. Elas apenas detinham o significado que eu dava a elas, mas você detém um significado próprio, que, não proposital, me fazia te amar. E esse senso de valor que eu dispunha era o que faltava nas pessoas atualmente. As pessoas nos dias de hoje não se entregam, não sentem a fundo, não se permitem viver; são tão vazias. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sobre o Degrau Atual


Eu devia estar bem. Eu devia estar me sentindo leve, devia estar melhor do que antes - e estou, mas não tanto quanto podia estar. Não apenas por você não ter me provado sua mudança com relação ao último conflito - o que realmente é impossível de imediato, já que há menos de 24h que nos restabelecemos -, mas por não ter visto atitude quanto às coisas que desabafei quando discutimos domingo. Parece que regurgitei em cima de você quase tudo que eu estava guardando na garganta, ainda que eu o tivesse feito porque pensei que era a última chance que eu tinha para te contar minhas angústias, mas nós estamos juntos novamente e você não fez nada para mudar as coisas que eu tanto gritei e expeli das minhas entranhas em meio à mágoa. É um pouco difícil disfarçar que isso me decepcionou - principalmente porque eu tinha outra visão de como você deveria ter agido nessas quase 24h. É tão difícil que meu corpo parou de reagir a você, deixando apenas meu coração reagir. Não quer dizer que a reação seja tão negativa assim; eu respiro seu cheiro e sinto sua pele em contato com a minha e tenho vontade de ficar deitada em seus braços num eterno abraço. Acabo fantasiando com você me consolando das dores que você mesmo me provocou - um consolo de apenas um abraço de horas, com carinho e sussurros que elevem minha auto-estima tão constantemente danificada; um olhar de arrependimento tão forte que conserte minha humilhação perante a tantos desrespeitos. Eu estou simplesmente cansada, o que não quer dizer que eu tenha parado de te amar, ou que esteja insatisfeita com o que você me oferece. Meu problema é que criei, desde sempre em minha vida, tantas expectativas sobre tantas coisas, que agora a falta de realização tem me bloqueado da felicidade plena. Eu estou feliz - juro!, e veja bem que jurar é algo sério -, mas essas mínimas decepções, que nem são culpa sua, mas minha e da minha patética mania piegas de idealizar demais, acabam me deixando sempre presa na felicidade melancólica. Presa no 'e se' e no 'será que é hoje', alternando entre a impaciência de uma garota imediatista e a compreensão de uma mulher que consegue conter seu lado piegas. É uma escada que estou subindo, e não posso nem devo culpar você por eu ainda não ter conseguido pisar em alguns degraus. O processo de amadurecimento, assim como o de aprendizagem, requer que eu caminhe sozinha e não culpe os outros por não me segurarem quando eu começo a tropeçar. Afinal, se eu tropeço, é porque ainda não tenho firmeza necessária para o tamanho daquela escada, e isso é algo que vem com o tempo, assim como a felicidade plena - e tenho certeza que ela virá também de você, algum dia.

Relógio

Tic tac, tic tac, tic tac, tic...
Não há relógios na parede. Não há relógios nos móveis; sequer nos nossos pulsos ou bolsos - até porque, jazemos nus entre os lençóis. Você parece patético cochilando enquanto eu roço meu corpo no seu, esperando que você reaja mesmo em meio ao seu sono. 
Tic tac, tic tac, tic..
Eu me reviro na cama e solto o ar por entre os lábios, fazendo um ruído alto de frustração; o relógio que tanto marca a passagem do tempo está na minha cabeça. Ele não é como os outros relógios: ele bate os segundos de acordo com a pulsação do meu próprio corpo. Sequer tenho coragem de tocar minhas mãos na pele do meu quadril, incerta sobre você estar de fato dormindo. Eu não faria nada, entretanto; apenas tentar adormecer minha necessidade de você. 
Tic tac, tic tac.
Você ronca e eu me encosto no seu peito, respirando a fundo seu cheiro e sorrindo um amor mais forte que a carne. Parece engraçado que você tenha dormido e eu fico com vontade de rir, mas contenho-me e fico observando seus traços. Contando algumas pintas no seu braço, brincando com os pêlos na sua barriga. Às vezes eu falo com você, enquanto você está com a boca escancarada e ressonando um sono pesado. Você fica sempre muito patético dormindo, mas eu fico estúpida quando o vejo assim. Parece que minha língua se solta e eu confesso coisas que não falo nem para mim mesma no meu diário, e meu coração palpita mais rápido à medida que meu baixo-ventre vai se acalmando. 
Tic.. tac.. tic.. tac..
Fico em dúvida se minha voz vai te acordar, ou se minha mania de tocar sua pele com os dedos vai te incomodar durante o sono, mas parece impossível me deter. Alguma coisa em você assim, de olhos fechados e sobrancelhas relaxadas, sempre me faz perceber o que sinto. Como quando descobri que estava apaixonada por você, quase um ano atrás.
Tic... tac...
Seu cheiro e o calor do seu corpo contra o meu começam a me entorpecer. Meus olhos fecham-se algumas vezes. Minhas carícias ficam mais preguiçosas, até minhas mãos tombarem na sua pele, imóveis. Eu ainda estou consciente, terminando de sussurrar uma ou outra coisa que...
Tic...  ...   ...  .

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Meu mais novo paradoxo

Você perdeu a capacidade de se entregar - entendo seus motivos, conheço pedaços da sua história. Sinto seus receios, imagino seus traumas, choro seus medos e tento não me afetar pelo tanto que isso interfere no nosso relacionamento. Em vão. Não digo que só você possui uma história de vida que nos deteriora; eu também tenho minha parcela de culpa, não nego - principalmente agora que sua incapacidade de se abrir e me deixar entrar na sua vida está me fazendo perder a minha capacidade de me entregar. Ultimamente temo desacreditar em relacionamentos; tenho me forçado a manter a cabeça no lugar e seguir com meus ideais, mas quanto mais vejo que você não está pronto para me oferecer o que eu vejo como correto, mais tento fugir de você antes que você me contamine com sua insegurança, e quanto mais tento fugir, mais perco minha capacidade de me entregar. Afundei-me num paradoxo e não sei mais como sair dele. Se continuo, desacredito; se fujo, incapacito-me. Tenho tido mais medo de me perder do que de te perder, mas o problema é que se te perco, me perco; se me perco, te perco. E criar dependência em algo também vai me deteriorar, além de deteriorar a nós dois e ao nosso relacionamento - o que vai me fazer perder ainda mais a capacidade de me entregar e volto ao paradoxo. Preciso fortalecer minhas estruturas para suportar e não permitir que seus medos virem meus.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um Pensamento Deslocado.

Um dia eu terei uma filha. Será mais ou menos assim:
-Mamãe, por que quando você conta histórias para eu dormir, nunca há príncipes como nas histórias que eu escuto a professora contar na escola?
-Porque não gosto de príncipes.
-Mas mãe, por que?
-Porque príncipes de verdade são ambiciosos e interesseiros, vivem brigando por poder e sempre acham que podem comprar as suas princesas. Deixe os príncipes para suas coleguinhas, minha filha, que um dia você encontra um sapo e vai ser bem mais feliz com ele, e dê graças a Deus se ele nunca virar um príncipe.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Um Apelo Indireto

As estradas são sempre diferentes do que parecem ser. Vamos seguindo sempre, encontrando não apenas pedras no caminho, como animais, bestas, que mais tarde percebi serem apenas seres humanos, como eu própria. Não existe mais tempo para fantasias e ingenuidade. E quanto mais você entende das trilhas que você segue, menos você quer andar. Há aqueles que compreendem toda a lógica cruel dos caminhos que nos são mostrados, e, ao invés de tentar resistir e seguir em frente, procurando e sendo as mudanças, eles apenas se entregam e tornam-se bestas. As estradas, assim, tornam-se mais obscuras e mais decepcionantes a cada segundo.
Eu ainda sou nova. Sou uma adolescente de apenas dezessete anos. Não é a primeira vez que escrevo, e também não será a última; entretanto, notei que falava, falava, imersa numa ingenuidade tão grande, e, por mais que minhas críticas fossem feitas sobre questões que me afligiam, eu não tinha realmente consciência da realidade. O que fez com que meu mundo ruísse e, agora, eu olhasse para tudo que construí e tivesse uma grande compaixão por mim mesma e por todos que conheço.
Olhe, não sou alguém com muitas certezas; pelo contrário: sou insegura e cheia de dúvidas. Porém, não é de hoje que conheço o mundo onde vivo - infelizmente, tive contato com a realidade muito cedo, apesar de não entende-la como atualmente. Só que eu achava que as soluções eram muito simples, que eu entendia tanto o mundo que, se eu falasse para os outros o que eu via, eles entenderiam e tentariam muda-lo comigo. Fui exposta ao ridículo mais vezes do que posso contar; taxada de ‘bobinha’, ou falsa moralista. Riram-se de mim, com minhas ideias que nunca surtiram efeito em ninguém. No entanto, não é a isso que me refiro, quando digo que eu era ingênua demais e não via a realidade com tanta clareza. Não. Eu ainda acho que, se queremos alguma mudança no mundo, a mudança tem que partir de nós. Certa vez li: “Seja a mudança que você quer para o mundo” (mas nunca soube exatamente quem disse isso). E essa frase traduz exatamente o que eu acho. O que eu queria dizer, na verdade, é que não podemos esperar que as pessoas ajam de acordo com o que nós vemos que é certo, ou mais adequado. E a verdade é que uma pessoa sozinha não muda uma cidade, muito menos um país ou um mundo.
Várias vezes, substituindo minha frase de “Seja a mudança que você quer para o mundo”, jogaram contra mim um outro termo, mais popular: “Lei da Selva”. Com toda a sinceridade, não há mentira em nenhum dos dois. Entretanto, um não anula o outro, mas, sim, de fato eles se atrapalham. E infelizmente… eu não posso pedir que os outros sacrifiquem sua vida para uma melhoria do mundo. Lei da Selva, certo? Não posso pedir que as pessoas não busquem sua própria sobrevivência, nesse mundo imundo. Que elas apanhem e apanhem da vida, para que o futuro, talvez para seus netos ou bisnetos, seja melhor. Com pessoas melhores, e, logo, um governo melhor, relacionamentos amorosos e amizades melhores, famílias mais bem-estruturadas, e afins. É um sacrifício que tem que ser feito, mas que vai prejudicar os que o fizerem.
Não sou assim tão radical, apesar de que eu gostaria. Não sou revolucionária, nem arrisco tanto quanto eu idealizo. Faço minha parte da forma que posso e, infelizmente, posso muito pouco. Tanto por eu ser menor de idade, quanto porque, de fato, existe sim uma “Lei da Selva” e eu preciso sobreviver - não tanto por mim, mas pelas pessoas à minha volta. E, inclusive, agora posso ainda menos. Estou com problemas sérios para resolver, é verdade. Não vem ao caso no momento, não tenho intenção de expor minha vida, mesmo que, sem querer, eu acabo o fazendo ao escrever meus pensamentos. Só que essa sensação de impotência dilacera e dilacera e substitui frustração por angústia.

O mundo é engraçado, como uma tragédia da qual fartamo-nos a rir. E seguimos rindo, porque é cômodo rir e apenas rir e nada fazer. E justificamos que nós rimos para não chorar, mas digo qual é a verdade: quem ri e é feliz, o faz perante situações boas, e não diante de tragédias; quem ri para não chorar, não em uma ocasião apenas, mas o tempo todo, diante do mundo como ele está, é porque começou a realmente achar graça na engenhosidade da decadência dele, e vai rindo, porque rir é cômodo, e a comodidade e a Lei da Selva nos transforma em animais. E não o digo daqueles que procuram ver o bom, e felicitam-se com as situações boas, e riem-se de puramente alegria, mas daqueles que enxergam no ruim algo do qual se rir, porque não pretendem fazer nada para mudar. E a mudança começa de dentro, e enquanto rirmos do mal, daremos abertura para entrar e participar dele. Veja bem: há uma imensa diferença entre rir de escárnio e aversão, ironia, e rir por realmente ver graça. É por isso que os animais que julgamos tão inferiores por não serem dotados de raciocínio como nós, estão sendo menos bestiais do que nós próprios.

(17/03/2012)

terça-feira, 13 de março de 2012

Comodidade Desgastante

Um relacionamento não é feito de comodidade. É muito simples para você querer me incluir num pedacinho da sua vida, que você só acessa quando e como quiser. Se algo me incomoda, estou te pressionando. Se vejo algo e vou perguntar, estou te vigiando. Se discordo de algo que você faz, estou te controlando. Não é assim, não. Mas já estou cansada demais para lutar contra essa sua comodidade. Eu estou deixando as coisas seguirem, vendo se a mudança parte de você mesmo, sem que eu precise interferir. E enquanto isso, vou me afastando aos poucos... devagar, deixando de te procurar. Focando meu amor por você não no meu coração, mas no nó na minha garganta, prestes a ser regurgitado e impelido para fora do meu corpo, mesmo que seja por lágrimas. E ele vai sendo substituído por tristeza - como se ele já não fosse um amor triste, como todos os amores solitários o são.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Desabafo

Eu só queria um pouco de demonstração pública. Queria parar de ter essa sensação de estar sendo escondida. Como se já não bastasse que não passemos jamais do ficar e ficar, sem evoluir... sem 'oficializar'. Ainda tenho que aceitar o fato de que em público você vai estar sempre disponível para qualquer uma, e que em público eu não significo nada. E não posso sequer me queixar, que você encara como se eu estivesse sendo absurda... soltando 'pérolas'.
Parece que estou sendo chata. Que estou todo dia procurando uma razão para me chatear, consequentemente fazendo você se chatear. Como se você não conseguisse perceber, e não soubesse, que eu estou insegura com nós dois, e que estou carente de demonstrações de que você sente algo por mim. Não que eu duvide do que você sente, mas é que preciso ver que você gosta de estar comigo e não tem vergonha de mostrar e deixar claro isso pros outros.
Enquanto quando suas amigas postam algo para você, você comenta, você dá atenção. Se eu também, acima de tudo, sou sua amiga, o que me difere delas e te faz não me dar a mesma atenção? Não ligo que você dê essa atenção a elas. Só queria que você pudesse dar essa atenção a mim também, será que estou sendo injusta ao me magoar?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Auto-necessidade

"Para viver a dois, é necessário, antes, ser um"

Ora, mas não basta apenas ser um, se com o tempo a dois você se perder e virar novamente apenas outra metade. Eu preciso de mim mesma. Preciso de mim, constantemente. Para manter-me inteira, completa. 
Atualmente a gente se preocupa demais em saber sobre os outros, sobre a vida dos outros, em conhecer os outros, mas esquecemos de nos conhecer. De descobrir nossos medos, nossos sonhos, nossas metas, nossos defeitos, nossas qualidades, nossas reações e nossos anseios. Se todos buscássemos saber mais de nós mesmos e menos dos outros, seríamos pessoas melhores e manteríamos relações mais saudáveis. Seríamos pessoas inteiras, e tentaríamos sempre nos mantermos inteiras, pois teríamos a consciência de que estamos em constante mudança e por isso a busca pelo autoconhecimento nunca cessa. Ocuparíamos nosso tempo livre com nós mesmos, e sendo pessoas plenas, saberíamos o que partilhar com os outros sobre nós mesmos, e os outros saberiam o que partilhar conosco sobre eles mesmos. O que geraria relacionamentos mais saudáveis e menos complicados. E pararíamos com a busca pela outra metade, e começaríamos a busca por outra pessoa inteira para dividirmos nossa vida.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cansaço Traiçoeiro

Eu tenho tido muita paciência. Abri mão de muito, compadeci de tudo, perdoei o que eu não costumo perdoar, e esperei - e ainda espero - muita coisa. Só que não tenho sido justa comigo mesma. Eu entendo que você tenha sofrido, entendo que seja difícil pra você abrir espaço para mim... mas eu tenho medos também. Tenho inseguranças, tenho um passado longo e um recente que me doeram e tiveram consequências importantes para meu caráter, mas também deixaram cicatrizes. E eu tenho negligenciado a mim mesma, porque tenho considerado tanto seus medos e cuidado tanto para que você esteja feliz e confortável, seguindo tanto seu tempo, que acabei esquecendo que eu também preciso que você cuide de mim. Que cuide das minhas inseguranças, que conquiste minha confiança que foi tão abalada por muitos e por você mesmo. Que siga meu tempo também, que entre em sintonia comigo, ou num meio-termo aceitável para nós dois. Eu amo você e não quero te perder, nem te pressionar, nem te mudar. Mas eu lembrei esses dias que eu também me amo, e não quero me perder, nem me pressionar, nem me mudar. Muito menos me negligenciar. Eu sou feita de doação, de entrega, de pensar no próximo, mas preciso de reconhecimento. Preciso de reciprocidade, não total, mas ao menos um pouco. Preciso de ao menos ver que você está tentando, mas você não está. Você está deixando rolar, e isso não é tentar, lutar, buscar: isso é apenas inércia. E a sua inércia me lotou de resignação, e resignar-me, neste caso, é negligenciar-me. Eu não quero te perder, mas infelizmente (e isso você só vai perceber quando acontecer, pois não te irei avisar), você vai acabar me perdendo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Dói

Não importa; estarei estagnada por tanto tempo quanto é possível numa vida. Resignada ao fato de jamais representar o máximo a alguém, jamais receber o melhor de alguém, jamais ser procurada. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um Turno

Avenida do Contorno ; Belo Horizonte

Quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 ; Fim de tarde




O sol aquele dia havia surgido em meio a um céu límpido; ao contrário dos últimos meses, não havia sequer uma ínfima suspeita de chuva. Parecia assombroso sentir tamanho calor, principalmente aventurando-me por entre as movimentadas ruas de Belo Horizonte logo no fim da tarde, onde o asfalto já começava a liberar todo o calor absorvido durante o dia, e o acúmulo de pessoas trafegando pela Avenida do Contorno transformava o ar em algo quase sólido e difícil de tragar. Ainda assim, não pensava em voltar para casa agora, e sim daqui a uma ou duas horas – o que era o estimado, se eu pudesse cumprir meu objetivo nos próximos 20 minutos, considerando o longo percurso de ônibus e metrô rumo ao bairro que eu morava. Parei à sombra de uma marquise, ofegando levemente, com os lábios entreabertos. Olhando logo à frente, reconheci a entrada de um prédio, logo acima do banco Itaú. Era, claramente, uma empresa, já que aquele típico vidro espelhado em sua construção era característica comum aos edifícios comerciais nos dias de hoje. Eu ajeitei brevemente meus trajes – que eram compostos apenas por sapatilhas verdes e um vestidinho acinzentado, de mangas curtas e saia leve e passível de esvoaçar. Procurei verificar se não estava curto, nem longo demais, e fiquei mais cerca de uns cinco minutos ajeitando o cabelo num coque frouxo e vendo se o envelope estava devidamente lacrado. Hesitava tanto e tanto procurava algo para adiar meu caminho, mas estava tudo em seu lugar. Tive de confessar a mim mesma que eu havia tido uma atitude um pouco impensada ao sair de casa em plena quarta-feira apenas para deixar um envelope naquele lugar - mas não iria vacilar agora. Umedeci meus lábios com a ponta da língua, em seguida prendendo meu piercing entre os dentes, procurando segurança em algo para não parecer nervosa. Foi bem nesse momento, quando soltei o piercing e o escondi atrás dos meus lábios fechados, que deparei-me com a sala de recepção. Eu sequer havia notado que adentrei aquele local – como se o mesmo átimo de determinação que havia me empurrado para lá houvesse também me impedido de prestar atenção no que eu fazia. Soltei a respiração pela boca, disfarçadamente, e me encaminhei ao balcão à direita, onde havia um homem de uniforme – o recepcionista. Boa... - hesitei, incerta se 18h seria noite ou tarde. -Boa tarde- eu finalmente disse, pensando no sol que ainda incendiava as pessoas lá fora. O senhor pode entregar por mim este envelope a um funcionário daqui..? Han, M* M* C*, é ilustrador. - estendi ao homem o envelope que eu carregava, percebendo, de relance, que ele era deficiente físico – não possuía grande parte de uma das mãos. Constrangida por ter observado esse detalhe, procurei desviar o olhar rapidamente, antes que pudesse ser flagrada. O homem, no entanto, não parecia ter percebido, e assegurou-me de que iria entregar. Agradeci, sentindo minhas mãos começarem a transpirar devido ao meu nervosismo. Com um último boa noite - o que era irônico, já que minutos atrás eu havia o cumprimentado por boa tarde -, eu me retirei da recepção e fiz meu caminho de volta até a marquise onde eu havia parado para me esconder do sol. Tentei limpar o suor das mãos com a barra do vestido, mas sabia que era uma tentativa frustrada; eu ainda estava nervosa, pois M* iria receber o envelope daqui a poucos instantes, encontrando apenas uma folha de papel de caderno com um beijo de batom vermelho, com os dizeres: Trouxe seu beijo. Sentindo o coração saltar na minha garganta, eu respirei fundo e pus-me a caminho de casa.

sábado, 14 de janeiro de 2012

I Need Me

Tenho sentido falta de mim mesma. De um tempo apenas meu, sem ninguém, sem sequer pensar em ninguém, apenas em mim mesma.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Amour Sans Amour


Você só percebe que não ama nem amou alguém, quando a dor devastadora que se apodera de você é a de perda. Você sente saudades de como vocês combinavam, de como se sentia bem com aquela pessoa. Sente saudades das flores que você recebia, da sintonia que vocês tinham nos gostos, do carinho que você fazia no cabelo dela até que o sono chegasse, do conforto que você sentia no meio da família dela. Amor não é isso... isso é se sentir seguro, é a sensação de alívio por pertencer a algum lugar, a alguma pessoa, a um meio de vida. Quando acaba, você até mesmo acredita que é por pouco tempo. Você não se importa, você ainda tem a certeza de que terá volta, porque você se sente parte daquela vida que vocês levavam, e sente como se aquela pessoa fosse sempre voltar para você. Isso é posse. E quando você nota que, por algum motivo, o término não é reversível, você desaba. Primeiro vem a tristeza, a sensação enlouquecedora de perda. Parece que seu mundo perdeu o sentido; isso é você vendo que sua rotina e seu modo de levar a vida – por mais ou por menos monótonos que fossem – acabaram. Você acha que jamais vai encontrar outra pessoa, que nunca será a mesma coisa, que nunca mais amará. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você pára sua vida, segue cumprindo suas obrigações diárias simplesmente por ter que cumprir. Pensa na pessoa com um outro amor, seguindo a vida sem você. Não tem vontade de fazer nada, acorda com vontade de voltar a dormir, e vai dormir com o desânimo de ter que acordar. Então, quando você pensa em tudo que aconteceu, tudo que vocês tinham e o tão pouco valor que a pessoa havia dado, você se sente trocado, desvalorizado, você sente raiva. Você quer gritar, esmurrar a parede até sua pele rasgar e sangrar. Você volta a sair, mas não sente prazer pelos passeios. Você sente é a necessidade de mostrar que vai ficar bem, você sente a necessidade de adrenalina. É seu inconsciente tentando te fazer voltar a viver, mas da forma errada. Você sai, fica chapando, com vontade de até perder a consciência. Isso não é amor. Amor não provoca raiva da separação, amor não provoca uma sensação de desamparo. Não sente uma dor desgraçada quando pensa na pessoa com outro alguém. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você segue nessa auto-destruição de forma tão patética, com tanta raiva de que saibam que você está mal, com tanta vontade de mostrar que está seguindo a vida e se divertindo – mesmo que não esteja –, e fica fugindo da piedade dos seus próprios amigos. Você só percebe o quanto tem sido estúpido quando já perdeu bastante tempo em uma confusão de sentimentos e frustrações. E, mesmo que você não tenha amado e não esteja amando, você nota que amor é algo único. E que se você tivesse realmente amado aquela pessoa, você teria ficado feliz ao vê-la num novo romance. Você teria admirado e idolatrado cada mínimo aspecto daquela pessoa e não sentiria falta do que vocês viviam, mas dela em si, dos seus estúpidos defeitos e das suas qualidades mais insignificantes. E não porque ela era espetacular e era sua, mas simplesmente por aquela pessoa ser daquele jeito. Você iria querer te-la por perto, ainda que não estejam mais juntos. Você iria querer apenas a simples presença dela, porque, pra você, não importaria a vida que vocês tinham e não têm mais. Importaria simplesmente poder vê-la, e, mesmo que houvesse um grande vazio no seu peito, você não pararia nem destruiria sua vida. Porque a sua vida estaria ali, perto de você, na forma daquela pessoa. E quando você consegue entender isso e ver que jamais amou, você ri da sua própria pateticidade, mas consegue, finalmente, dar adeus e seguir adiante.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Viver o Presente

Não sei. Eu estava ali, deitada no emaranhado de tecidos em cima da cama, perdida entre o que era lençol e o que eram minhas roupas, apenas refletindo sobre nós dois. Está tudo tão estupidamente confortável com nossos modos tão singelos de levar o que quer que tenhamos adiante, ainda que não sejamos algo público, ainda que não sejamos aquele velho clichê piegas, parece tudo bem. Não há cobranças. Não há promessas que não sabemos se poderemos cumprir. Ainda há ciúmes, sim, provavelmente pelo meu jeito estúpido de achar que você merece mais. E eu confesso que coloquei o desenho em preto-e-branco porque não aguentava ver os desenhos com cabelos vermelhos, como os dela. Não agora, quando tudo parece tão perfeito que tenho medo de acabar. Não agora que não somos nada, não agora que ela ainda parece tão ameaçadora por trás de sua perfeição tão falada. Mas pensar no futuro? Não quero, desculpe. Criar expectativas sempre trouxe consigo longas marcas de frustração. Estou evitando pensar no que quero ser para você. Ou no que sou. Às vezes, deitada ao seu lado, sentindo seu corpo abraçado ao meu, eu esqueço de não pensar. Por isso, às vezes me atropelo e te pergunto algo que, temo, ainda não é hora para saber. Eu ainda não te amo, para ser sincera. Mas meu coração acelera quando você está por perto, você provavelmente notou quando o ouviu aquele dia. Eu ainda consigo ficar nervosa perto de você, sentir aquela vontade de estar ao seu lado e andar de mãos dadas. É algo que estou construindo, e, sinceramente, é bom ir reparando as ruínas do meu coração, mesmo sem saber se vamos continuar o que temos, se vamos virar bons amigos, ou se algum dia dará em algo sério. Ainda tenho medo de me envolver demais e você sabe - não completamente - de tudo que me faz ter receio disso. Sei que para você, tambem, deve estar sendo complicado abrir espaço para alguém. Não conheço sua história, não conheço sua vida, mas tudo que já compartilhamos um com o outro delatam que, pra você, não é tão mais fácil do que para mim. Nunca conversamos a sério sobre nós, e sempre tive medo de tocar nesse assunto, pois, como disse, está tudo tão estupidamente confortável que tenho medo de estragar com minhas inseguranças. Confesso que, algumas vezes, tive tanto medo de tudo acabar, que quis dar um ponto final antes que pudesse te amar. Apaixonada? Já estou. Ainda é algo reversível, o que me tranquiliza imensamente. Sei que você ainda não está. Nem sei se algum dia estará. E por isso fecho os olhos e deixo as coisas entre nós seguirem, porque se vou te amar, se você vai se apaixonar, se vamos ter ou não algo…? Bom, essas coisas são pro futuro decidir. E eu não acho que valha a pena procurar saber. Porque independente do que acontecer lá na frente, vou te guardar comigo, sempre. Porque o que está acontecendo agora me faz bem e é isso que importa e que sempre vai importar.