quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um Turno

Avenida do Contorno ; Belo Horizonte

Quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 ; Fim de tarde




O sol aquele dia havia surgido em meio a um céu límpido; ao contrário dos últimos meses, não havia sequer uma ínfima suspeita de chuva. Parecia assombroso sentir tamanho calor, principalmente aventurando-me por entre as movimentadas ruas de Belo Horizonte logo no fim da tarde, onde o asfalto já começava a liberar todo o calor absorvido durante o dia, e o acúmulo de pessoas trafegando pela Avenida do Contorno transformava o ar em algo quase sólido e difícil de tragar. Ainda assim, não pensava em voltar para casa agora, e sim daqui a uma ou duas horas – o que era o estimado, se eu pudesse cumprir meu objetivo nos próximos 20 minutos, considerando o longo percurso de ônibus e metrô rumo ao bairro que eu morava. Parei à sombra de uma marquise, ofegando levemente, com os lábios entreabertos. Olhando logo à frente, reconheci a entrada de um prédio, logo acima do banco Itaú. Era, claramente, uma empresa, já que aquele típico vidro espelhado em sua construção era característica comum aos edifícios comerciais nos dias de hoje. Eu ajeitei brevemente meus trajes – que eram compostos apenas por sapatilhas verdes e um vestidinho acinzentado, de mangas curtas e saia leve e passível de esvoaçar. Procurei verificar se não estava curto, nem longo demais, e fiquei mais cerca de uns cinco minutos ajeitando o cabelo num coque frouxo e vendo se o envelope estava devidamente lacrado. Hesitava tanto e tanto procurava algo para adiar meu caminho, mas estava tudo em seu lugar. Tive de confessar a mim mesma que eu havia tido uma atitude um pouco impensada ao sair de casa em plena quarta-feira apenas para deixar um envelope naquele lugar - mas não iria vacilar agora. Umedeci meus lábios com a ponta da língua, em seguida prendendo meu piercing entre os dentes, procurando segurança em algo para não parecer nervosa. Foi bem nesse momento, quando soltei o piercing e o escondi atrás dos meus lábios fechados, que deparei-me com a sala de recepção. Eu sequer havia notado que adentrei aquele local – como se o mesmo átimo de determinação que havia me empurrado para lá houvesse também me impedido de prestar atenção no que eu fazia. Soltei a respiração pela boca, disfarçadamente, e me encaminhei ao balcão à direita, onde havia um homem de uniforme – o recepcionista. Boa... - hesitei, incerta se 18h seria noite ou tarde. -Boa tarde- eu finalmente disse, pensando no sol que ainda incendiava as pessoas lá fora. O senhor pode entregar por mim este envelope a um funcionário daqui..? Han, M* M* C*, é ilustrador. - estendi ao homem o envelope que eu carregava, percebendo, de relance, que ele era deficiente físico – não possuía grande parte de uma das mãos. Constrangida por ter observado esse detalhe, procurei desviar o olhar rapidamente, antes que pudesse ser flagrada. O homem, no entanto, não parecia ter percebido, e assegurou-me de que iria entregar. Agradeci, sentindo minhas mãos começarem a transpirar devido ao meu nervosismo. Com um último boa noite - o que era irônico, já que minutos atrás eu havia o cumprimentado por boa tarde -, eu me retirei da recepção e fiz meu caminho de volta até a marquise onde eu havia parado para me esconder do sol. Tentei limpar o suor das mãos com a barra do vestido, mas sabia que era uma tentativa frustrada; eu ainda estava nervosa, pois M* iria receber o envelope daqui a poucos instantes, encontrando apenas uma folha de papel de caderno com um beijo de batom vermelho, com os dizeres: Trouxe seu beijo. Sentindo o coração saltar na minha garganta, eu respirei fundo e pus-me a caminho de casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário