Você só percebe que não ama nem amou alguém, quando a dor devastadora que se apodera de você é a de perda. Você sente saudades de como vocês combinavam, de como se sentia bem com aquela pessoa. Sente saudades das flores que você recebia, da sintonia que vocês tinham nos gostos, do carinho que você fazia no cabelo dela até que o sono chegasse, do conforto que você sentia no meio da família dela. Amor não é isso... isso é se sentir seguro, é a sensação de alívio por pertencer a algum lugar, a alguma pessoa, a um meio de vida. Quando acaba, você até mesmo acredita que é por pouco tempo. Você não se importa, você ainda tem a certeza de que terá volta, porque você se sente parte daquela vida que vocês levavam, e sente como se aquela pessoa fosse sempre voltar para você. Isso é posse. E quando você nota que, por algum motivo, o término não é reversível, você desaba. Primeiro vem a tristeza, a sensação enlouquecedora de perda. Parece que seu mundo perdeu o sentido; isso é você vendo que sua rotina e seu modo de levar a vida – por mais ou por menos monótonos que fossem – acabaram. Você acha que jamais vai encontrar outra pessoa, que nunca será a mesma coisa, que nunca mais amará. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você pára sua vida, segue cumprindo suas obrigações diárias simplesmente por ter que cumprir. Pensa na pessoa com um outro amor, seguindo a vida sem você. Não tem vontade de fazer nada, acorda com vontade de voltar a dormir, e vai dormir com o desânimo de ter que acordar. Então, quando você pensa em tudo que aconteceu, tudo que vocês tinham e o tão pouco valor que a pessoa havia dado, você se sente trocado, desvalorizado, você sente raiva. Você quer gritar, esmurrar a parede até sua pele rasgar e sangrar. Você volta a sair, mas não sente prazer pelos passeios. Você sente é a necessidade de mostrar que vai ficar bem, você sente a necessidade de adrenalina. É seu inconsciente tentando te fazer voltar a viver, mas da forma errada. Você sai, fica chapando, com vontade de até perder a consciência. Isso não é amor. Amor não provoca raiva da separação, amor não provoca uma sensação de desamparo. Não sente uma dor desgraçada quando pensa na pessoa com outro alguém. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você segue nessa auto-destruição de forma tão patética, com tanta raiva de que saibam que você está mal, com tanta vontade de mostrar que está seguindo a vida e se divertindo – mesmo que não esteja –, e fica fugindo da piedade dos seus próprios amigos. Você só percebe o quanto tem sido estúpido quando já perdeu bastante tempo em uma confusão de sentimentos e frustrações. E, mesmo que você não tenha amado e não esteja amando, você nota que amor é algo único. E que se você tivesse realmente amado aquela pessoa, você teria ficado feliz ao vê-la num novo romance. Você teria admirado e idolatrado cada mínimo aspecto daquela pessoa e não sentiria falta do que vocês viviam, mas dela em si, dos seus estúpidos defeitos e das suas qualidades mais insignificantes. E não porque ela era espetacular e era sua, mas simplesmente por aquela pessoa ser daquele jeito. Você iria querer te-la por perto, ainda que não estejam mais juntos. Você iria querer apenas a simples presença dela, porque, pra você, não importaria a vida que vocês tinham e não têm mais. Importaria simplesmente poder vê-la, e, mesmo que houvesse um grande vazio no seu peito, você não pararia nem destruiria sua vida. Porque a sua vida estaria ali, perto de você, na forma daquela pessoa. E quando você consegue entender isso e ver que jamais amou, você ri da sua própria pateticidade, mas consegue, finalmente, dar adeus e seguir adiante.

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