segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Perfeitamente Imperfeito


Já preparou uma refeição a um africano que não sabe o que é comida provavelmente desde que nasceu? Viu aquela pessoa faminta devorar o que você deu a ela, sorrindo incrédula, sem nem sentir direito o gosto de tanta fome que sentia, e, quando saciada, essa pessoa simplesmente rir, rir, rir e então rir e chorar de até soluçar? Rir de felicidade plena, de satisfação, alívio, incredulidade; chorar de humilhação, de vergonha e também alegria extrema. Vendo isso, o que você faria? Imagino que abraçaria, consolaria, daria seu apoio e mostraria que, hey, está tudo bem agora. Não precisa preocupar, esqueça a fome que você já sentiu, esqueça a dor, está tudo bem.
Eu precisava disso. Precisava de você comigo. Não de mil amigos meus vendo que eu tava claramente perturbada com algo e sem eu poder falar uma palavra sequer – até porque, se você não entendeu, nenhum deles entenderia. Eu tentei eu mesma te substituir e me dar o que eu precisava que você me desse, mas não funcionou. E agora acho que nem adianta você tentar fazer isso por mim, acho melhor eu lidar com tudo que aconteceu sozinha.
Sei que teve um grande significado pra você, também  Só que tinha um significado muito mais fundo e pesado pra mim. E eu não queria ter tido que lidar com isso sozinha. 

Amigos da Selva


Eu não aprovo a dita Lei da Selva. Ouvi tanto sobre o assunto, e já discorri sobre isso tantas vezes, mas eu nunca tinha reparado que ela estava presente em situações tão pequenas. Eu a vi nitidamente por esses dias e flagrei-me surpresa com o tanto que ela estava intrincada em cada mínimo gesto e cada minha partícula de ar. E vi as consequências dela em você. Suas rugas, sua pele, seu olhar, seus ombros duros e pescoço tensionado. Você estava sucumbindo ao estresse e nem sequer minhas massagens melhorariam a situação – e digo porque tentei. E a Lei da Selva viera em forma de um amigo, que decerto não tinha nenhuma intenção de deixá-lo assim, pois eu não tinha dúvidas de que ele te amava. O problema era aquela maldita Lei, que o sobrecarregou e, desesperado pela própria sobrevivência, jogou o peso nos seus ombros de uma forma que parecia que havia jogado pedras. Não posso julgá-lo por ter feito isso com você, mas também não deixo de me compadecer da situação. O seu estresse me doía em algum lugar dentro de mim que eu geralmente associava à impotência. Eu estava impotente. Nada que eu falasse ou fizesse poderia te tirar daquela situação e eu temia pela amizade de vocês que poderia facilmente ser danificada por causa do anseio pela vida – aliás, não pela vida, mas pela sobrevivência. Ele precisava do seu trabalho para se sustentar e você precisava de tempo para trabalhar não apenas naquele projeto, mas em tantos outros, para poder também se sustentar. E aquilo se tornou não uma bola de neve, mas uma bola de arame farpado. Até eu estava nela, agarrada, desesperada e impotente. Preocupada por ver você daquela forma, ver justo você daquela forma. Sempre me senti tão protegida nos seus braços e aquele conforto que você me dava era uma força que me fazia acordar todo dia, mas eu não tinha como oferecer o mesmo a você. Eu não sabia como te proteger. Só podia assistir e esperar o final desse martírio chegar. E sei que ele vai chegar. Só espero que, nessa hora, vocês não estejam destruídos, ou que o laço entre vocês também não esteja tão danificado. Talvez, aí, eu possa tentar consertar suas feridas – ou pelo menos fazer alguma massagem que realmente dê resultado nos seus músculos duros.

Plenitude e Egoísmo


O Ser Humano é um animal que tem inteligência, mas não consciência do quanto precisa da natureza. O Homem faz parte da natureza, afinal. Só percebemos o quanto ela faz falta quando entramos novamente em contato com ela. Fomos ao parque das mangabeiras com o intuito de discutirmos o nosso relacionamento, mas grande parte do tempo passamos apenas apreciando aquele cheiro de terra e ar fresco batendo no rosto e nos cabelos. Depois chegamos a conversar, no Papa, o que foi deveras produtivo; entretanto, só o fiz porque algumas coisas não devem ser deixadas para depois – e porque sou um bocado teimosa, admito. Para mim, aquele momento apenas nós dois, com seu sorriso cansado e olhos mais alegres, no meio daquele lugar tão bonito, era suficiente para me mostrar o quanto eu fazia questão de você na minha vida. Pareço até ranzinza de ter feito tanta questão daquela conversa, mesmo depois de ter passado um momento tão feliz ao seu lado, mas há certas dores que são necessárias, mesmo em meio a situações tão gostosas. Aquele fim de tarde tinha gostinho de algodão-doce e cheiro de chuva – mesmo que não tenha chovido. Alguns cheiros, alguns gostos, algumas sensações têm um sentimento especial para mim. Partilhá-los com você foi algo transcendental e talvez você jamais saiba, mas você naquele momento entrou num pedacinho do meu mundo. Você raramente entra no meu mundo, mas quando o faz, é uma emoção sublime. Havia ainda tantas coisas que eu queria ter te mostrado, tantas que eu queria ter feito com você, mas eu não precisava atropelar tudo e te entupir de informações novas e vivências esquisitas do meu mundo. Aquele momento bastou. Eu estava feliz, e fiquei ainda mais feliz porque nossa conversa – meu pequeno egoísmo – havia se saído bem. Nós estávamos bem. Podíamos melhorar, mas todos sempre podem melhorar, mas estávamos bem. Caminhando para algo imperfeito como o mundo, mas perfeito da forma que eu podia ver.

Sobre Vazio e Rosas


As pessoas nos dias de hoje são tão vazias. Hoje eu descobri, quando acordei na minha cama e, após me remexer na preguiça de levantar, virei para o lado e me deparei com o buquê que você me deu. Meu dia teve outro sentido naquele momento; mesmo minha tão conhecida sonolência matinal havia desaparecido quase que por mágica. Pela primeira vez em muito tempo eu sorri ao acordar. A minha pequena descoberta foi algo além da minha própria compreensão, apenas um mínimo resquício da plenitude daquela verdade, mas que já era o suficiente para que eu ficasse satisfeita. Eu não partilhava do mesmo vazio que as demais pessoas. É estranho dizer isso assim, depois de tantos anos convicta de que eu tinha algo dentro de mim que era até mesmo silencioso, um puro vácuo que nem os sons propagavam. Entretanto, eu não era vazia – parecia, por não me adequar na maioria das situações dessa época em que nasci. Eu apenas me sentia mal e sentia falta de algo que, na verdade, era apenas o recheio do vazio dos outros. Eu não estava vazia, só estava frustrada com o vazio alheio. Era essa a novidade que, mesmo sendo apenas um pedacinho de algo incompreensível, para mim bastava. Levantei da cama naquele momento e sentei com as pernas cruzadas no chão, frente ao vaso que continha o buquê. E eu soube que você não era assim tão vazio, também. As pétalas das rosas estavam começando a murchar e a água estava um pouco esverdeada, mas eu não me importei. Aquilo que eu encarava com tanta admiração era uma prova mortal de um sentimento que podia nunca morrer, se nós tomássemos o devido cuidado. Eu sabia que as rosas iriam morrer, mas aquilo já não me deixava triste. Eu amava você e, por isso, amava as rosas. Se elas sumissem, eu ainda amaria você, mas se você sumisse, eu não mais amaria as rosas. Elas apenas detinham o significado que eu dava a elas, mas você detém um significado próprio, que, não proposital, me fazia te amar. E esse senso de valor que eu dispunha era o que faltava nas pessoas atualmente. As pessoas nos dias de hoje não se entregam, não sentem a fundo, não se permitem viver; são tão vazias.