Eu não aprovo a dita Lei da
Selva. Ouvi tanto sobre o assunto, e já discorri sobre isso tantas vezes, mas
eu nunca tinha reparado que ela estava presente em situações tão pequenas. Eu a
vi nitidamente por esses dias e flagrei-me surpresa com o tanto que ela estava
intrincada em cada mínimo gesto e cada minha partícula de ar. E vi as
consequências dela em você. Suas rugas, sua pele, seu olhar, seus ombros duros
e pescoço tensionado. Você estava sucumbindo ao estresse e nem sequer minhas
massagens melhorariam a situação – e digo porque tentei. E a Lei da Selva viera
em forma de um amigo, que decerto não tinha nenhuma intenção de deixá-lo assim,
pois eu não tinha dúvidas de que ele te amava. O problema era aquela maldita
Lei, que o sobrecarregou e, desesperado pela própria sobrevivência, jogou o
peso nos seus ombros de uma forma que parecia que havia jogado pedras. Não
posso julgá-lo por ter feito isso com você, mas também não deixo de me
compadecer da situação. O seu estresse me doía em algum lugar dentro de mim que
eu geralmente associava à impotência. Eu estava impotente. Nada que eu falasse
ou fizesse poderia te tirar daquela situação e eu temia pela amizade de vocês
que poderia facilmente ser danificada por causa do anseio pela vida – aliás,
não pela vida, mas pela sobrevivência. Ele precisava do seu trabalho para se
sustentar e você precisava de tempo para trabalhar não apenas naquele projeto,
mas em tantos outros, para poder também se sustentar. E aquilo se tornou não
uma bola de neve, mas uma bola de arame farpado. Até eu estava nela, agarrada,
desesperada e impotente. Preocupada por ver você daquela forma, ver justo você
daquela forma. Sempre me senti tão protegida nos seus braços e aquele conforto
que você me dava era uma força que me fazia acordar todo dia, mas eu não tinha
como oferecer o mesmo a você. Eu não sabia como te proteger. Só podia assistir
e esperar o final desse martírio chegar. E sei que ele vai chegar. Só espero
que, nessa hora, vocês não estejam destruídos, ou que o laço entre vocês também
não esteja tão danificado. Talvez, aí, eu possa tentar consertar suas feridas –
ou pelo menos fazer alguma massagem que realmente dê resultado nos seus
músculos duros.
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