As estradas são sempre diferentes do que parecem ser. Vamos seguindo sempre, encontrando não apenas pedras no caminho, como animais, bestas, que mais tarde percebi serem apenas seres humanos, como eu própria. Não existe mais tempo para fantasias e ingenuidade. E quanto mais você entende das trilhas que você segue, menos você quer andar. Há aqueles que compreendem toda a lógica cruel dos caminhos que nos são mostrados, e, ao invés de tentar resistir e seguir em frente, procurando e sendo as mudanças, eles apenas se entregam e tornam-se bestas. As estradas, assim, tornam-se mais obscuras e mais decepcionantes a cada segundo.
Eu ainda sou nova. Sou uma adolescente de apenas dezessete anos. Não é a primeira vez que escrevo, e também não será a última; entretanto, notei que falava, falava, imersa numa ingenuidade tão grande, e, por mais que minhas críticas fossem feitas sobre questões que me afligiam, eu não tinha realmente consciência da realidade. O que fez com que meu mundo ruísse e, agora, eu olhasse para tudo que construí e tivesse uma grande compaixão por mim mesma e por todos que conheço.
Olhe, não sou alguém com muitas certezas; pelo contrário: sou insegura e cheia de dúvidas. Porém, não é de hoje que conheço o mundo onde vivo - infelizmente, tive contato com a realidade muito cedo, apesar de não entende-la como atualmente. Só que eu achava que as soluções eram muito simples, que eu entendia tanto o mundo que, se eu falasse para os outros o que eu via, eles entenderiam e tentariam muda-lo comigo. Fui exposta ao ridículo mais vezes do que posso contar; taxada de ‘bobinha’, ou falsa moralista. Riram-se de mim, com minhas ideias que nunca surtiram efeito em ninguém. No entanto, não é a isso que me refiro, quando digo que eu era ingênua demais e não via a realidade com tanta clareza. Não. Eu ainda acho que, se queremos alguma mudança no mundo, a mudança tem que partir de nós. Certa vez li: “Seja a mudança que você quer para o mundo” (mas nunca soube exatamente quem disse isso). E essa frase traduz exatamente o que eu acho. O que eu queria dizer, na verdade, é que não podemos esperar que as pessoas ajam de acordo com o que nós vemos que é certo, ou mais adequado. E a verdade é que uma pessoa sozinha não muda uma cidade, muito menos um país ou um mundo.
Várias vezes, substituindo minha frase de “Seja a mudança que você quer para o mundo”, jogaram contra mim um outro termo, mais popular: “Lei da Selva”. Com toda a sinceridade, não há mentira em nenhum dos dois. Entretanto, um não anula o outro, mas, sim, de fato eles se atrapalham. E infelizmente… eu não posso pedir que os outros sacrifiquem sua vida para uma melhoria do mundo. Lei da Selva, certo? Não posso pedir que as pessoas não busquem sua própria sobrevivência, nesse mundo imundo. Que elas apanhem e apanhem da vida, para que o futuro, talvez para seus netos ou bisnetos, seja melhor. Com pessoas melhores, e, logo, um governo melhor, relacionamentos amorosos e amizades melhores, famílias mais bem-estruturadas, e afins. É um sacrifício que tem que ser feito, mas que vai prejudicar os que o fizerem.
Não sou assim tão radical, apesar de que eu gostaria. Não sou revolucionária, nem arrisco tanto quanto eu idealizo. Faço minha parte da forma que posso e, infelizmente, posso muito pouco. Tanto por eu ser menor de idade, quanto porque, de fato, existe sim uma “Lei da Selva” e eu preciso sobreviver - não tanto por mim, mas pelas pessoas à minha volta. E, inclusive, agora posso ainda menos. Estou com problemas sérios para resolver, é verdade. Não vem ao caso no momento, não tenho intenção de expor minha vida, mesmo que, sem querer, eu acabo o fazendo ao escrever meus pensamentos. Só que essa sensação de impotência dilacera e dilacera e substitui frustração por angústia.
O mundo é engraçado, como uma tragédia da qual fartamo-nos a rir. E seguimos rindo, porque é cômodo rir e apenas rir e nada fazer. E justificamos que nós rimos para não chorar, mas digo qual é a verdade: quem ri e é feliz, o faz perante situações boas, e não diante de tragédias; quem ri para não chorar, não em uma ocasião apenas, mas o tempo todo, diante do mundo como ele está, é porque começou a realmente achar graça na engenhosidade da decadência dele, e vai rindo, porque rir é cômodo, e a comodidade e a Lei da Selva nos transforma em animais. E não o digo daqueles que procuram ver o bom, e felicitam-se com as situações boas, e riem-se de puramente alegria, mas daqueles que enxergam no ruim algo do qual se rir, porque não pretendem fazer nada para mudar. E a mudança começa de dentro, e enquanto rirmos do mal, daremos abertura para entrar e participar dele. Veja bem: há uma imensa diferença entre rir de escárnio e aversão, ironia, e rir por realmente ver graça. É por isso que os animais que julgamos tão inferiores por não serem dotados de raciocínio como nós, estão sendo menos bestiais do que nós próprios.
(17/03/2012)