domingo, 22 de janeiro de 2012

Dói

Não importa; estarei estagnada por tanto tempo quanto é possível numa vida. Resignada ao fato de jamais representar o máximo a alguém, jamais receber o melhor de alguém, jamais ser procurada. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um Turno

Avenida do Contorno ; Belo Horizonte

Quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 ; Fim de tarde




O sol aquele dia havia surgido em meio a um céu límpido; ao contrário dos últimos meses, não havia sequer uma ínfima suspeita de chuva. Parecia assombroso sentir tamanho calor, principalmente aventurando-me por entre as movimentadas ruas de Belo Horizonte logo no fim da tarde, onde o asfalto já começava a liberar todo o calor absorvido durante o dia, e o acúmulo de pessoas trafegando pela Avenida do Contorno transformava o ar em algo quase sólido e difícil de tragar. Ainda assim, não pensava em voltar para casa agora, e sim daqui a uma ou duas horas – o que era o estimado, se eu pudesse cumprir meu objetivo nos próximos 20 minutos, considerando o longo percurso de ônibus e metrô rumo ao bairro que eu morava. Parei à sombra de uma marquise, ofegando levemente, com os lábios entreabertos. Olhando logo à frente, reconheci a entrada de um prédio, logo acima do banco Itaú. Era, claramente, uma empresa, já que aquele típico vidro espelhado em sua construção era característica comum aos edifícios comerciais nos dias de hoje. Eu ajeitei brevemente meus trajes – que eram compostos apenas por sapatilhas verdes e um vestidinho acinzentado, de mangas curtas e saia leve e passível de esvoaçar. Procurei verificar se não estava curto, nem longo demais, e fiquei mais cerca de uns cinco minutos ajeitando o cabelo num coque frouxo e vendo se o envelope estava devidamente lacrado. Hesitava tanto e tanto procurava algo para adiar meu caminho, mas estava tudo em seu lugar. Tive de confessar a mim mesma que eu havia tido uma atitude um pouco impensada ao sair de casa em plena quarta-feira apenas para deixar um envelope naquele lugar - mas não iria vacilar agora. Umedeci meus lábios com a ponta da língua, em seguida prendendo meu piercing entre os dentes, procurando segurança em algo para não parecer nervosa. Foi bem nesse momento, quando soltei o piercing e o escondi atrás dos meus lábios fechados, que deparei-me com a sala de recepção. Eu sequer havia notado que adentrei aquele local – como se o mesmo átimo de determinação que havia me empurrado para lá houvesse também me impedido de prestar atenção no que eu fazia. Soltei a respiração pela boca, disfarçadamente, e me encaminhei ao balcão à direita, onde havia um homem de uniforme – o recepcionista. Boa... - hesitei, incerta se 18h seria noite ou tarde. -Boa tarde- eu finalmente disse, pensando no sol que ainda incendiava as pessoas lá fora. O senhor pode entregar por mim este envelope a um funcionário daqui..? Han, M* M* C*, é ilustrador. - estendi ao homem o envelope que eu carregava, percebendo, de relance, que ele era deficiente físico – não possuía grande parte de uma das mãos. Constrangida por ter observado esse detalhe, procurei desviar o olhar rapidamente, antes que pudesse ser flagrada. O homem, no entanto, não parecia ter percebido, e assegurou-me de que iria entregar. Agradeci, sentindo minhas mãos começarem a transpirar devido ao meu nervosismo. Com um último boa noite - o que era irônico, já que minutos atrás eu havia o cumprimentado por boa tarde -, eu me retirei da recepção e fiz meu caminho de volta até a marquise onde eu havia parado para me esconder do sol. Tentei limpar o suor das mãos com a barra do vestido, mas sabia que era uma tentativa frustrada; eu ainda estava nervosa, pois M* iria receber o envelope daqui a poucos instantes, encontrando apenas uma folha de papel de caderno com um beijo de batom vermelho, com os dizeres: Trouxe seu beijo. Sentindo o coração saltar na minha garganta, eu respirei fundo e pus-me a caminho de casa.

sábado, 14 de janeiro de 2012

I Need Me

Tenho sentido falta de mim mesma. De um tempo apenas meu, sem ninguém, sem sequer pensar em ninguém, apenas em mim mesma.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Amour Sans Amour


Você só percebe que não ama nem amou alguém, quando a dor devastadora que se apodera de você é a de perda. Você sente saudades de como vocês combinavam, de como se sentia bem com aquela pessoa. Sente saudades das flores que você recebia, da sintonia que vocês tinham nos gostos, do carinho que você fazia no cabelo dela até que o sono chegasse, do conforto que você sentia no meio da família dela. Amor não é isso... isso é se sentir seguro, é a sensação de alívio por pertencer a algum lugar, a alguma pessoa, a um meio de vida. Quando acaba, você até mesmo acredita que é por pouco tempo. Você não se importa, você ainda tem a certeza de que terá volta, porque você se sente parte daquela vida que vocês levavam, e sente como se aquela pessoa fosse sempre voltar para você. Isso é posse. E quando você nota que, por algum motivo, o término não é reversível, você desaba. Primeiro vem a tristeza, a sensação enlouquecedora de perda. Parece que seu mundo perdeu o sentido; isso é você vendo que sua rotina e seu modo de levar a vida – por mais ou por menos monótonos que fossem – acabaram. Você acha que jamais vai encontrar outra pessoa, que nunca será a mesma coisa, que nunca mais amará. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você pára sua vida, segue cumprindo suas obrigações diárias simplesmente por ter que cumprir. Pensa na pessoa com um outro amor, seguindo a vida sem você. Não tem vontade de fazer nada, acorda com vontade de voltar a dormir, e vai dormir com o desânimo de ter que acordar. Então, quando você pensa em tudo que aconteceu, tudo que vocês tinham e o tão pouco valor que a pessoa havia dado, você se sente trocado, desvalorizado, você sente raiva. Você quer gritar, esmurrar a parede até sua pele rasgar e sangrar. Você volta a sair, mas não sente prazer pelos passeios. Você sente é a necessidade de mostrar que vai ficar bem, você sente a necessidade de adrenalina. É seu inconsciente tentando te fazer voltar a viver, mas da forma errada. Você sai, fica chapando, com vontade de até perder a consciência. Isso não é amor. Amor não provoca raiva da separação, amor não provoca uma sensação de desamparo. Não sente uma dor desgraçada quando pensa na pessoa com outro alguém. Mas você ainda não sabe que não amava aquela pessoa. Você segue nessa auto-destruição de forma tão patética, com tanta raiva de que saibam que você está mal, com tanta vontade de mostrar que está seguindo a vida e se divertindo – mesmo que não esteja –, e fica fugindo da piedade dos seus próprios amigos. Você só percebe o quanto tem sido estúpido quando já perdeu bastante tempo em uma confusão de sentimentos e frustrações. E, mesmo que você não tenha amado e não esteja amando, você nota que amor é algo único. E que se você tivesse realmente amado aquela pessoa, você teria ficado feliz ao vê-la num novo romance. Você teria admirado e idolatrado cada mínimo aspecto daquela pessoa e não sentiria falta do que vocês viviam, mas dela em si, dos seus estúpidos defeitos e das suas qualidades mais insignificantes. E não porque ela era espetacular e era sua, mas simplesmente por aquela pessoa ser daquele jeito. Você iria querer te-la por perto, ainda que não estejam mais juntos. Você iria querer apenas a simples presença dela, porque, pra você, não importaria a vida que vocês tinham e não têm mais. Importaria simplesmente poder vê-la, e, mesmo que houvesse um grande vazio no seu peito, você não pararia nem destruiria sua vida. Porque a sua vida estaria ali, perto de você, na forma daquela pessoa. E quando você consegue entender isso e ver que jamais amou, você ri da sua própria pateticidade, mas consegue, finalmente, dar adeus e seguir adiante.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Viver o Presente

Não sei. Eu estava ali, deitada no emaranhado de tecidos em cima da cama, perdida entre o que era lençol e o que eram minhas roupas, apenas refletindo sobre nós dois. Está tudo tão estupidamente confortável com nossos modos tão singelos de levar o que quer que tenhamos adiante, ainda que não sejamos algo público, ainda que não sejamos aquele velho clichê piegas, parece tudo bem. Não há cobranças. Não há promessas que não sabemos se poderemos cumprir. Ainda há ciúmes, sim, provavelmente pelo meu jeito estúpido de achar que você merece mais. E eu confesso que coloquei o desenho em preto-e-branco porque não aguentava ver os desenhos com cabelos vermelhos, como os dela. Não agora, quando tudo parece tão perfeito que tenho medo de acabar. Não agora que não somos nada, não agora que ela ainda parece tão ameaçadora por trás de sua perfeição tão falada. Mas pensar no futuro? Não quero, desculpe. Criar expectativas sempre trouxe consigo longas marcas de frustração. Estou evitando pensar no que quero ser para você. Ou no que sou. Às vezes, deitada ao seu lado, sentindo seu corpo abraçado ao meu, eu esqueço de não pensar. Por isso, às vezes me atropelo e te pergunto algo que, temo, ainda não é hora para saber. Eu ainda não te amo, para ser sincera. Mas meu coração acelera quando você está por perto, você provavelmente notou quando o ouviu aquele dia. Eu ainda consigo ficar nervosa perto de você, sentir aquela vontade de estar ao seu lado e andar de mãos dadas. É algo que estou construindo, e, sinceramente, é bom ir reparando as ruínas do meu coração, mesmo sem saber se vamos continuar o que temos, se vamos virar bons amigos, ou se algum dia dará em algo sério. Ainda tenho medo de me envolver demais e você sabe - não completamente - de tudo que me faz ter receio disso. Sei que para você, tambem, deve estar sendo complicado abrir espaço para alguém. Não conheço sua história, não conheço sua vida, mas tudo que já compartilhamos um com o outro delatam que, pra você, não é tão mais fácil do que para mim. Nunca conversamos a sério sobre nós, e sempre tive medo de tocar nesse assunto, pois, como disse, está tudo tão estupidamente confortável que tenho medo de estragar com minhas inseguranças. Confesso que, algumas vezes, tive tanto medo de tudo acabar, que quis dar um ponto final antes que pudesse te amar. Apaixonada? Já estou. Ainda é algo reversível, o que me tranquiliza imensamente. Sei que você ainda não está. Nem sei se algum dia estará. E por isso fecho os olhos e deixo as coisas entre nós seguirem, porque se vou te amar, se você vai se apaixonar, se vamos ter ou não algo…? Bom, essas coisas são pro futuro decidir. E eu não acho que valha a pena procurar saber. Porque independente do que acontecer lá na frente, vou te guardar comigo, sempre. Porque o que está acontecendo agora me faz bem e é isso que importa e que sempre vai importar.