As pessoas nos dias de hoje são
tão vazias. Hoje eu descobri, quando acordei na minha cama e, após me remexer
na preguiça de levantar, virei para o lado e me deparei com o buquê que você me
deu. Meu dia teve outro sentido naquele momento; mesmo minha tão conhecida
sonolência matinal havia desaparecido quase que por mágica. Pela primeira vez
em muito tempo eu sorri ao acordar. A minha pequena descoberta foi algo além da
minha própria compreensão, apenas um mínimo resquício da plenitude daquela
verdade, mas que já era o suficiente para que eu ficasse satisfeita. Eu não
partilhava do mesmo vazio que as demais pessoas. É estranho dizer isso assim,
depois de tantos anos convicta de que eu tinha algo dentro de mim que era até
mesmo silencioso, um puro vácuo que nem os sons propagavam. Entretanto, eu não
era vazia – parecia, por não me adequar na maioria das situações dessa época em
que nasci. Eu apenas me sentia mal e sentia falta de algo que, na verdade, era
apenas o recheio do vazio dos outros. Eu não estava vazia, só estava frustrada
com o vazio alheio. Era essa a novidade que, mesmo sendo apenas um pedacinho de
algo incompreensível, para mim bastava. Levantei da cama naquele momento e
sentei com as pernas cruzadas no chão, frente ao vaso que continha o buquê. E eu
soube que você não era assim tão vazio, também. As pétalas das rosas estavam
começando a murchar e a água estava um pouco esverdeada, mas eu não me
importei. Aquilo que eu encarava com tanta admiração era uma prova mortal de um
sentimento que podia nunca morrer, se nós tomássemos o devido cuidado. Eu sabia
que as rosas iriam morrer, mas aquilo já não me deixava triste. Eu amava você
e, por isso, amava as rosas. Se elas sumissem, eu ainda amaria você, mas se
você sumisse, eu não mais amaria as rosas. Elas apenas detinham o significado
que eu dava a elas, mas você detém um significado próprio, que, não proposital,
me fazia te amar. E esse senso de valor que eu dispunha era o que faltava nas
pessoas atualmente. As pessoas nos dias de hoje não se entregam, não sentem a
fundo, não se permitem viver; são tão vazias.
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